Pesquisa com participação da EACH alerta para doença parasitária que pode confundir diagnóstico de doenças hematológicas em idosos

Postado em 28 de August de 2026

Estudo publicado na revista Discover Medicine analisa um caso de leishmaniose visceral concomitante a uma síndrome mielodisplásica e reforça a importância da investigação integrada entre parasitologia e hematologia.

Uma pesquisa colaborativa com a participação de pesquisadores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), traz um importante alerta para a saúde pública: a infecção pelo parasita Leishmania infantum pode produzir alterações na medula óssea e no sangue que se sobrepõem às observadas em doenças hematológicas, dificultando o diagnóstico preciso, especialmente em pacientes idosos.

O estudo, publicado no início de agosto na revista científica internacional Discover Medicine, descreve o caso clínico de um paciente de 86 anos residente no Rio Grande do Norte — região endêmica para a leishmaniose visceral.

O Desafio Diagnóstico

O paciente deu entrada no hospital apresentando febre recorrente, perda de peso acentuada e pancitopenia grave (redução severa de hemácias, leucócitos e plaquetas).

No exame inicial da medula óssea, a presença de 19% de blastos associada à falência medular levantou a suspeita de uma neoplasia mielóide aguda. Entretanto, investigações imunofenotípicas e moleculares posteriores revelaram um quadro mais complexo: a presença abundante de formas amastigotas de Leishmania na medula óssea — confirmadas via PCR multiplex como Leishmania infantum  — concomitante a alterações compatíveis com Síndrome Mielodisplásica (SMD).

O caso também chamou atenção porque o teste sorológico rápido (rK39) realizado na admissão apresentou resultado falso-negativo. Segundo os pesquisadores, a intensa disfunção imunológica e hematopoiética pode reduzir a sensibilidade desses testes, aumentando o risco de atraso no diagnóstico.

Febre, perda de peso e muita fraqueza são sintomas recorrentes. Foto: Freepik

Como a infecção interfere na medula óssea

A professora Sandra Marcia Muxel, docente do curso de Biotecnologia da EACH/USP e coautora sênior do estudo, explica que a Leishmania pode alterar o funcionamento do microambiente medular, produzindo manifestações que dificultam a interpretação dos exames hematológicos.

“A medula óssea funciona como um importante reservatório para o parasita. A infecção crônica induz inflamação e estresse oxidativo, alterando a homeostase das células-tronco hematopoiéticas. Em pacientes idosos, essas alterações podem agravar a disfunção medular já existente e tornar o diagnóstico diferencial ainda mais desafiador.”

Para Ian Antunes Ferreira Bahia, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Imunologia do ICB-USP e primeiro autor do artigo, o principal ensinamento do trabalho é a necessidade de uma abordagem multidisciplinar.

“Em regiões onde a leishmaniose é endêmica, médicos e hematologistas devem considerar a infecção parasitária entre os diagnósticos diferenciais de pacientes com pancitopenia e alterações medulares, mesmo quando os achados iniciais sugiram uma neoplasia hematológica. A integração entre hematologia, citometria de fluxo, parasitologia e diagnóstico molecular é essencial para definir a conduta adequada.”

Apesar da confirmação diagnóstica e do início do tratamento com anfotericina B lipossomal, o paciente evoluiu a óbito devido ao comprometimento sistêmico avançado e à grave falência medular, somados às limitações de suporte transfusional por convicções religiosas.

A publicação reforça a importância de reconhecer como doenças infecciosas negligenciadas podem coexistir com doenças hematológicas e gerar quadros clínicos de difícil interpretação, contribuindo para diagnósticos mais precisos e manejo mais adequado em regiões endêmicas.