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Pesquisa inédita publicada na ´Nature Cities´ revela colapso dos ecossistemas de riacho na Região Metropolitana de SP
Postado em 26 de August de 2026
Estudo liderado pelos professores Luis Schiesari (EACH-USP) e Victor Saito (UFSCar) mostra, através de dados de qualidade da água, estrutura do ambiente e biodiversidade, o colapso do fluxo de energia e da ciclagem de matéria nos riachos de São Paulo. Usando metodologia inédita, a pesquisa detectou uma redução drástica de 1.446 vezes no fluxo de energia nos riachos, que é um indicador da somatória de todas as interações ecológicas em um ecossistema.
Uma pesquisa conduzida em 30 microbacias da Bacia do Alto Tietê, que abastece a Região Metropolitana de São Paulo – megacidade com mais de 22 milhões de habitantes – concluiu que a expansão urbana provoca um colapso drástico nas interações entre presas e predadores (as teias alimentares) de riachos. O estudo, publicado na prestigiosa revista Nature Cities, produziu evidência empírica que a expansão da urbanização sobre áreas conservadas está associada a uma forte e rápida degradação da vida aquática, o que influencia uma série de fatores relevantes à população urbana, incluindo a disponibilidade de água potável para milhões de pessoas.
Na primeira fase da pesquisa, os pesquisadores selecionaram cuidadosamente 30 microbacias distribuídas ao longo de um gradiente de cobertura urbana, isto é, desde microbacias inteiramente cobertas por Mata Atlântica até microbacias inteiramente urbanizadas. Depois, amostraram peixes e invertebrados tais como insetos, crustáceos, minhocas, moluscos e planárias. Finalmente, para conseguir reconstruir a alta complexidade das interações ecológicas em foco, o estudo deu cuidadosa atenção ao tamanho dos corpos dos organismos aquáticos presentes, pois este é um indicador das demandas de energia do organismo e de sua posição como predador ou presa . Então, a partir do que se sabe sobre suas preferências de alimentação, a pesquisa reconstruiu as teias alimentares no riacho – um mapa de ‘quem come quem’ – bem como suas consequências para o funcionamento do ecossistema.
O estudo que a acelerada e intensa expansão da Região Metropolitana de São Paulo alterou profundamente os ecossistemas de riachos na Bacia do Alto Tietê. A relação do tamanho dos corpos e da diversidade dos organismos aquáticos com os impactos da urbanização mostrou que a perda de biodiversidade associada ao desenvolvimento urbano não é aleatória: ela elimina de forma preferencial espécies muito pequenas, moderadamente grandes e grandes, comprimindo a teia alimentar numa faixa de tamanhos intermediários.
A consequência mais severa observada foi o colapso da complexidade da teia alimentar e suas consequências para o funcionamento dos ecossistemas. Em ecossistemas preservados, os pesquisadores identificaram redes de interações entre predadores e presas que somam até 190 ligações. Nos riachos urbanos, esse número caiu para apenas 3 ligações, resultando em uma redução de 1.446 vezes no fluxo de energia e na ciclagem da matéria orgânica que sustenta esses ecossistemas, indicando extrema perda de vida.
Os autores alertam que esse colapso já se manifesta em microbacias com apenas 12.5% de cobertura urbana, mesmo considerando que microbacias com 12.5% de cobertura urbana tem expressiva cobertura florestal. Portanto, a expansão da cidade não transforma os riachos de forma gradual, mas logo nas primeiras etapas da implementação da infraestrutura urbana se apresenta a degradação da água, da estrutura física do riacho e da biodiversidade.
“A perda de diversidade e a degradação da integridade das teias alimentares têm consequências extensas para as sociedades urbanas”, alertam os autores. Isso porque as teias alimentares complexas desaceleram o fluxo de matéria nos riachos, favorecendo o processamento lento que leva à quebra de poluentes tóxicos. Nos riachos de teias alimentares simples, a matéria flui com maior velocidade e acaba por chegar e ser depositada aos pontos mais baixos do terreno sem ser processada do mesmo modo. Ocorre que é nos pontos mais baixos do terreno que estão os reservatórios que usamos para abastecimento público, como a represa Billings, que recebe água de várias microbacias amostradas no estudo.
O estudo evidencia que a substituição de florestas por infraestrutura urbana não afeta apenas a biodiversidade local, mas compromete o funcionamento básico dos ecossistemas aquáticos, com impactos diretos na qualidade de vida da população. Os pesquisadores destacam a urgência de políticas de planejamento urbano que considerem a preservação de microbacias intactas e a recuperação de corredores ecológicos e de riachos em áreas metropolitanas.
Título: Urban expansion and the collapse of tropical stream ecosystems
Autores: Luis Schiesari (EACH-USP) e Dr. Victor Saito (UFSCar)
Link do artigo: https://rdcu.be/fzUc6
