AULA MAGNA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TURISMO

Postado em 11 de abril de 2018

No dia 9 de abril, na Assembleia Legislativa de São Paulo-ALESP, aconteceu a quinta edição da Aula Magna do Programa de Pós-Graduação em Turismo. A aula intitulada “O lugar da hospitalidade numa reflexão crítica do desenvolvimento” foi ministrada pelo prof. Dr. Josemar de Campos Maciel, da Universidade Católica Dom Bosco-UCDB, de Campo Grande-MS. O debatedor foi Alfredo Gimenes, líder da Pastoral do Turismo do Estado de São Paulo. Estiveram presentes alunos e professores do Mestrado em Turismo, alunos da graduação em Lazer em Turismo e convidados e interessados externos.

O professor Josemar Maciel desenvolveu seu pós-doutorado na EACH-USP, entre 2015 e 2017, sob a supervisão do prof. Alexandre Panosso e no dia 10 de março teve a oportunidade de apresentar os resultados de sua pesquisa intitulada “Hospitalidade e desenvolvimento: por uma pequena conversação” para os alunos do Mestrado em Turismo. Em seguida ele respondeu a três perguntas para esta matéria:

  1. Professor, o senhor proferiu uma conferência junto à EACH tratando do tema da hospitalidade e do desenvolvimento. Para um leigo interessado, o que exatamente significa isso?

Primeiramente, obrigado pela oportunidade. Uma conversa é sempre um ato de intercâmbio e de escuta. Significa que temos alguma coisa para dividir, para saborear juntos, de algum modo. No meu caso, o trabalho que desenvolvi junto à EACH-USP sob supervisão do Dr. Alexandre Panosso Netto tem relação com o conceito de Desenvolvimento. A minha reflexão é ao mesmo tempo simples e comprometedora, ao menos para mim. Basicamente, trata-se de um ensaio filosófico que tenta responder à pergunta “o que acontece com o conceito de Desenvolvimento, se o deixamos atravessar pelo conceito de hospitalidade?”. Em outras palavras, a ideia é pensar, se podemos dar um exemplo plástico, o desenvolvimento como sendo um projeto, e as diversas figuras – atores – interessadas, como sendo um grande grupo. Eu me interrogo se, e até que ponto, vamos ainda ter a ilusão de que na área do pensamento do Desenvolvimento (assim mesmo, como um grande conceito, econômico, social, político, espiritual), nós ainda vamos ter uma única pessoa ditando tudo, um grupo privilegiado fazendo todas as movimentações, ou se podemos pensar de forma realmente ampla, que leve em consideração as diversas possibilidades que acontecem quando os recursos de grupos e de interesses diferentes começam a ser levados em consideração, e a sério. Não apenas para desenvolver práticas pontuais, para aliviar problemas em situações específicas. Mais que isso. Para reintroduzir e dimensionar, no próprio conceito, no centro de toda a agenda, as experiências e possibilidades, visões de mundo e problemáticas, dessas pessoas que foram excluídas do grupo, ou que não vem sendo levadas a sério. Introduzo essa problemática a partir de um desenvolvimento da reflexão sobre a hospitalidade do grande filósofo Jacques Derrida., que nos ajuda a perceber que a hospitalidade é uma experiência constitutiva da vida humana., e mesmo assim, ela sempre nos desafia a ir além. É o que ele chama de uma “possibilidade impossível”.

  1. Parece um tema muito denso e difícil de entender, para muitos públicos, apesar da sua importância! Como essa discussão se aplica à sua região de origem, no Estado do Mato Grosso do Sul?

A minha região de origem, o Centro-Oeste, exemplifica de forma clássica essa categorização que eu ensaio em meu trabalho. Na história do Centro-Oeste, os modelos de desenvolvimento levam em conta projetos de grande espectro, oriundos do Governo (que denominamos Desenvolvimento pensado Para o Local), projetos de grandes atores interessados em acumular riquezas e produzir empreendimentos, não à toa denominados “empreendedores” – que na minha região são, em grande número, comerciantes, pecuaristas e agricultores (este modelo denominamos Desenvolvimento No Local). Mas falta levar em conta, na definição mesma do que seja isso, o “Desenvolvimento”, a visão riquíssima de populações nativas, como as etnias indígenas, que sempre foram importantes para a preservação do ambiente, pois estavam ali desde antes da nossa chegada. Como, também as populações afrodescendentes, as comunidades remanescentes e resistentes de Quilombos. Podemos aprender com essas comunidades muitas coisas importantes mas, sobretudo, destaco, uma forma sábia e equilibrada de entender e de articular a relação dos humanos com a terra e com outras populações ao redor, além da territorialidade. Na prática, venho chamando isso, seguindo o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, de “aprender a ser índios”. Estamos desenvolvendo um modo de pensar que vê o Desenvolvimento como um fenômeno que envolve uma escuta profunda de quem somos, do que podemos e queremos ser, a partir de nossas raízes e de nossas temporalidades complexas. A partir das diversas possibilidades de recuperação das cosmologias e das práticas, das lógicas e dos sentimentos de diversas comunidades, movimentos sociais e atores que podem ter mais voz, quando se trata de decidir os destinos do país. Afinal, o país pertence a essas comunidades, da mesma forma que a outros atores, mais aparelhados financeiramente, mas mais agressivos em relação ao ambiente, por exemplo.

  1. Olhando para a nossa Universidade, como o senhor vê os motivos que o levaram a escolher a EACH-USP para desenvolver seus estudos de pós-doutoramento?

Tenho uma relação de grande carinho com a Universidade de São Paulo desde muitos anos, e uma relação de profundo respeito e amizade com o Prof. Alexandre Panosso. Além disso, para quem é do Centro-Oeste como eu, desenvolver um trabalho sediado na USP é como estar num dos mais importantes nascedouros do diálogo entre a intelectualidade e a sociedade brasileira. E a Escola de Artes, Ciências e Humanidades me forneceu espaço e tempo para desenvolver a sensibilidade para essa interlocução. A USP, com sua independência, é para mim um estímulo para manter a cabeça erguida, mesmo diante da contínua fragilização das relações sociais, da brutalidade que muitas vezes vejo, na lida com populações que são tão ricas e, ao mesmo tempo, tão deixadas à margem.

 

AULA MAGNA ALESP 2018

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