Para além do entretenimento, cultura pop é tema de disciplina

Postado em 10 de julho de 2017

Ter na grade horária duas horas reservadas para estudar as origens do rock’n roll, da fantasia e da ficção científica é o sonho de muitos universitários. Para os alunos do ciclo básico da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, é uma possibilidade bem palpável.

A multidisciplinaridade da unidade permite que os estudantes de graduação possam escolher optativas eletivas em áreas como ciência da natureza, arte, literatura e cultura. Dentre as opções, há a disciplina de Fantasia e Ficção Científica na Cultura Pop, ministrada pelo professor Luis Paulo de Carvalho Piassi.

“A Academia é um pouco avessa a este tipo de objeto”, diz o docente. “Mas a EACH é um espaço multidisciplinar e tem um programa de pós-graduação em estudos culturais bastante favorável para a pesquisa em fantasia e ficção científica”.

Para Piassi, o ensino tradicional não ignora apenas esses dois gêneros, mas também outros que tenham uma origem popular, sejam midiáticos e estejam ligados à indústria cultural. Em contrapartida, “a proposta dos estudos culturais é justamente a de trabalhar com objetos heterodoxos, pouco canônicos e mais alternativos”, explica o professor.

Além de ministrar disciplinas para o curso de Ciências da Natureza, Piassi também é um dos coordenadores do grupo de pesquisa Interfaces (Interfaces e Núcleos Temáticos de Estudos e Recursos da Fantasia nas Artes, Ciências, Educação e Sociedade). Nas aulas e atividades de pesquisa, o professor consegue angariar voluntários para seus projetos de extensão: Banca da Ciência, Projeto Alice e Projeto Joaninha. “O vínculo entre pesquisa e extensão gera uma demanda de alunos enorme”, afirma.

Ficção em sala de aula

Durante as aulas, Piassi prefere um conteúdo menos enciclopédico e mais reflexivo. O foco não é apenas entrar em contato com grandes obras da fantasia e da ficção científica, mas desenvolver nos estudantes a capacidade de compreender o que elas tem a dizer sobre o seu tempo e como influenciaram outras vertentes da arte e do entretenimento.


Luís Paulo de Carvalho Piassi – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Com o apoio de pesquisas desenvolvidas pelo Interfaces e de teóricos como Roland Barthes e Umberto Eco na bibliografia, os estudantes moldam uma visão mais crítica da fantasia e da ficção científica.

O cronograma discute aspectos dos gêneros no cinema, na literatura e na música, desde a publicação de “Frankenstein” por Mary Shelley, em 1818 — obra que marca a criação da ficção científica —, até os dias dias atuais. “Em geral, sempre trago alguma coisa do hoje, do agora”, diz o professor.

“Eu vou pautando algumas coisas que as pessoas não percebem, como a conexão entre o surgimento do rock e o desenvolvimento tecnológico da ciência”, exemplifica. A transgressão do gênero não aparece somente nas letras das músicas, mas também na sonoridade distorcida e eletrônica surgida a partir da invenção de amplificadores.

O que se destaca na disciplina é o uso do método learning by doing, quando o aluno aprende fazendo. Para o professor, a aula não é o único momento para adquirir conhecimento. “A ideia da matéria é que ela engaje os estudantes em projetos fora do horário de aula. Por isso, exijo muita pesquisa nas minhas disciplinas. Acredito que a proatividade do aluno leva ao aprendizado”.

 

*Do Jornal da USP

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