Estudo realizado na EACH/USP sugere alternativas de avaliação do Ciência sem Fronteiras

Postado em 12 de janeiro de 2018

Artigo publicado na Revista Brasileira de Políticas Públicas e Internacionais propõe uma investigação das relações entre as instituições e os pesquisadores que enviaram e receberam estudantes do programa para verificar como a mobilidade acadêmica internacional pode ser um incentivo à colaboração científica

O programa Ciência sem Fronteiras (CsF) concedeu, entre 2011-2016, bolsas de intercâmbio a mais de cem mil brasileiros e buscou atrair pesquisadores do exterior para o Brasil. A iniciativa ainda carece de dados que demonstrem os impactos do programa. Um estudo realizado na USP, publicado no final de dezembro na Revista Brasileira de Políticas Públicas e Internacionais, propõe novas abordagens para avaliar como o programa influenciou a produção de conhecimento e a colaboração científica internacional.

Concebido como demanda estratégica da comunidade científica pela expansão, internacionalização e consolidação da ciência brasileira, por meio do intercâmbio e da mobilidade internacional, o Ministério da Educação (MEC) e o então Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) atingiram a meta inicial e enviaram estudantes para 47 países, em sete modalidades diferentes entre as mobilidades out (que manda estudantes brasileiros a outros países) e in (que recebe estudantes em nossas instituições).

Celebrado como política pública importante, o programa produziu muitos debates e foi alvo de críticas de especialistas, principalmente pela rápida implementação, o alto investimento, o foco em bolsas de graduação e os critérios de escolha das áreas prioritárias. Essas críticas, aliadas a uma conjuntura de arrocho fiscal, mudanças na política nacional e cortes na ciência e tecnologia brasileiras, levaram o MEC a decretar, em abril de 2017, o fim da oferta de bolsas para os cursos de graduação sob a justificativa de que era alto o custo para manter os alunos estudando fora do País. O último edital para bolsas de graduação foi publicado em 2014, mas, segundo o próprio MEC, o programa mantém a concessão de bolsas de pós-graduação – em 2017, cerca de 5 mil pesquisadores foram beneficiados.

O pesquisador Guilherme de Rosso Manços, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, ressalta que a falta de avaliação do Ciência sem Fronteiras é outro problema do programa e, sob orientação do professor Fernando S. Coelho, publicou, na Revista Brasileira de Políticas Públicas e Internacionais (RPPI), o artigo “Internacionalização da Ciência Brasileira: subsídios para avaliação do programa Ciência sem Fronteiras”, que sugere alguns critérios para avaliar o programa.

Segundo ele, os processos avaliativos de programas e políticas públicas são fundamentais para subsidiar o debate público. Em seu artigo, Manços aponta que a insuficiência de avaliação “foi (e continua sendo) alvo de intenso e controverso debate” sobre o CsF.

O primeiro problema para a realização dessas análises, de acordo com Manços, está na coleta de dados que, devido à recenticidade (seis anos) da iniciativa, apresenta informações difusas e escassas, qualitativa e quantitativamente. Além disso, o pesquisador aponta a área de ciência e tecnologia como um campo que demanda tempo e os investimentos são, via de regra, de longo prazo.

“No caso de processos para avaliação de políticas públicas” – pondera Coelho, coautor do artigo – “os estudos de impacto e efeitos – para além das avaliações de processos (números de bolsas, áreas abrangidas e orçamento) – requerem tempo. Exemplo: como a formação de redes de pesquisas pelos bolsistas se traduzem em publicações internacionais?”, questiona.

Manços conta ao Jornal da Ciência que no decorrer da pesquisa houve uma tentativa de análise da influência do CsF nas redes de coautorias internacionais entre países a partir de metodologias bibliométricas, utilizando um recorte por áreas prioritárias, como em 2013 na proposta metodológica de avaliação do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE).

Devido à ausência de um conjunto de palavras-chave que caracterize as áreas prioritárias, houve dificuldade com a coleta de dados bibliométricos pela plataforma Web of Science. Uma alternativa seria coletar tais dados dos bolsistas do CsF através da Plataforma Lattes, entretanto o Currículo Lattes dos pesquisadores indica apenas a agência de fomento financiadora da bolsa e não o programa a que foi vinculado, inviabilizando este recorte. Dificuldades que, conforme ressaltou o estudo, também inviabilizaram a proposta do CGEE.

Segundo a assessoria de imprensa da instituição, o CGEE elaborou uma proposta metodológica de avaliação, mas, de fato, não chegou a realizar nenhum estudo específico e aprofundado sobre o CsF. “A decisão de fazê-la cabe ao MCTIC e ao MEC, por meio das suas agências, que examinarão a conveniência e oportunidade de mobilizar o CGEE para tal tarefa”, informou.

Proposta e recomendações

Em seu estudo, Manços apresenta como proposta de avaliação do impacto do Ciência sem Fronteiras na internacionalização da Ciência brasileira uma investigação das relações entre as instituições e os pesquisadores que enviaram e receberam estudantes. “Este mecanismo” – defende o pesquisador – “pode ser uma potencial alternativa para verificar se a mobilidade acadêmica internacional é um incentivo à colaboração científica, pois dessa maneira é possível realizar análises com grupos de controle.”

O artigo traz o estudo de caso de um estudante de medicina da USP e ex-bolsista do CsF, Eduardo Ferracioli-Oda, na universidade de Yale, nos Estados Unidos, que em 2013 publicou um artigo em coautoria internacional com Michael H. Bloch, pesquisador de Yale, e outros dois autores. Ao buscar o Lattes do bolsista, há a informação sobre outro artigo científico com coautorias internacionais publicado em 2015 com outros seis autores, incluindo Bloch.

Manços conclui que, ainda que pontual, este é um exemplo de como a experiência de mobilidade acadêmica internacional pode gerar produção científica a partir de colaboração científica internacional. “Em complemento, infere-se também que a interação entre os pesquisadores continuou mesmo após o retorno do bolsista ao Brasil, vide artigo publicado em 2015”, afirma.

Os indícios levam a crer, segundo o autor, que o investimento em mobilidade acadêmica internacional pode ser um incentivo à colaboração científica internacional, uma vez que o vínculo criado tende a permanecer ativo.

O Lattes do bolsista não o identifica como participante do programa CsF, o que dificulta a coleta de dados extensiva para o caso de outros pesquisadores. Manços utiliza, então, o caso de Ferracioli-Oda para outra sugestão: “Uma proposta de avaliação é que seja confeccionado um mapeamento das publicações de todos os bolsistas do CsF e a análise de coautorias dessas publicações, em comparação com um grupo controle de pesquisadores que não realizaram mobilidade acadêmica internacional”.

O pesquisador aponta um terceiro caminho. Segundo ele, a análise de coautoria do Brasil com os países que mais receberam bolsistas do CsF daria algumas pistas avaliativas do programa.

Longo prazo

Egresso do programa Ciência sem Fronteiras e mobilizador da Rede CsF Alumni, Manços defende que, apesar de ter tido falhas, o CsF foi um programa “extremamente positivo e proveitoso para os estudantes/pesquisadores, para as instituições e para o Brasil”.

“É importante dizer que o programa teve falhas, sim. Nesse sentido eu ressaltaria as dificuldades de gestão devido à implementação muito rápida, atrelada à meta política de 101.000 bolsas, à deficiência de avaliação do programa como uma política pública, e à ausência de um projeto ou proposta robusta de continuidade dos objetivos do programa envolvendo os egressos”, afirma, e acrescenta: “Quanto aos resultados macro, precisamos aguardar. Investimento em CT&I é de longo prazo. O programa tem apenas seis anos. Mas já temos imensos resultados individuais e institucionais. Há uma extensa lista de casos de sucesso de egressos do programa Ciência sem Fronteiras”, diz.

*Do Jornal da Ciência

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